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Nos idos de 1980, eu resolvi fazer um versinho pra reclamar das máquinas de escrever da redação, que, na verdade, estavam brabinhas. A redatora Ana Maria Pacheco Lopes de Almeida resolveu sacanear e responder também com um versinho. Longas foram as semanas em que o desafio se desenvolveu entre eu e ela, tudo isso com as armas inicialmente escolhidas: o verso.


Jayme Caetano Braun


Sirvam as nossas façanhas...


Paulo Acosta x Ana Maria


Do Mural da Rádio Guaíba

Ano de 1980
Era 1980, dia 13 de junho, e, insatisfeito com o estado das máquinas de escrever da redação da rádio, este que vos fala, Paulo Acosta, resolveu colocar no mural o seu protesto em verso.
Existem máquinas de escrever
e existem merdas,
máquinas de escrever, não sei o que são,
merda, é o que temos na redação.

O objetivo do protesto contra a direção. Mas a redatora Ana Maria Pacheco Lopes de Almeida, na brincadeira, respondeu e assinou como "A direção":

Até não lhe tiro a razão
meu caro empregado Acosta
Mas de que serve máquina boa
prá um redator de bosta?
(A direção)
Temendo uma reação da chefia, o Macedão, Hermelindo Macedo, fez o seu verso, também:
Com licença da indiada,
vou entrar nessa parada
pau nas máquina estragada
é cosa que vai rendê,
mais é melhor não se estendê,
pros redator não se f..ê.!

Um pouco irritado porque a Ana tinha avacalhado com meu protesto, e também pra esquentar a brincadeira, respondi com cinco sextilhas:
É por essas e por mais outras
que tamos livres de enchentes
o nível anda tão baixo
que eles redigem contentes
inda brincam co"a verdade
assinam por dirigentes

Rimam bosta com Acosta
como Bocages modernos
vão penando nas Facit
nesse con formismo eterno
achando graça do estrilo
enquanto eu perco os cadernos

É me excusem se me excedo
na resposta ao detrator
(nada a ver com a Massey-Ferguson
É que me empana o valor
o "bosta" com que pecharam
da queixa séria o autor

Eu tinha que retorquir
pra não transitar em julgado
não apanhar de quadrinha
com verso de pé quebrado
que eu não cedo rima rica
Prá trovador iniciado

Mesmo porque minha meta
não era entrar nessa aposta
só queria um bom teclado
Prá redigir minhas bostas
Porque verso por verso
ainda sou mais o Acosta

(Tenho dito, Indiada)


A essa altura, o mural da rádio já começava a ser mais visitado do que o túmulo do Teixeirinha nos finados.
Todos esperavam a resposta da resposta da resposta...
Ana Maria não se fez de rogada.

Muito me mespanta a resposta
da rima no quadro posta
o molestado se queixa
mas bem que aproveita a deixa
e repete o que não gosta
rimando Acosta com bosta

Diante de tal discrepância
peço a Vossa tolerância
pra também comprar parada
Mas não defendo a indiada
que está por cima na empresa
da tal máquina pifada

Concordo que o caso é grave
e está a causar entrave
pros gênios da redação
mas alto lá, meu irmão
brigar com alguém desse rango
é gastar tiro em chimango

Que aqui não tem conformista
e posso dizer que estou "lista"
pra topar uma rixa quente
com quem intica co"a gente
não dá é pra coroar de louro
quem do pobre tira o couro

Brigar por causa de tecla
é se tornar mais assecla
do bando de rufião
Esta é a arma do ladrão -
dar carne pra cachorrada
enquanto assalta o povão

O furo está mais acima
pra quem é tão bom de rima
lê o cartaz aí do lado
e mesmo estando cansado
não deixa de aparecer
faz tua palavra valer

Co'a pena, meu caro acosta
luta contra essa josta
que chamam de inflação
vai combatê exploração
e responder desacato
na sede do Sindicato

Aqui vou me despedindo,
que o Miranda já vem vindo
Prá mais trabalho me dar
Espero que o meu cantar
"Le" tenha feito pensar
não esquece a cartucheira
Compadre, até terça-feira

(Ana Maria)

A trova crescia, e não apenas no interesse. Agora Ana Maria apresentava oito sextilhas, e eu respondia com dez.


Ora vejam, virou trova
e quase levo uma sova
dessa chinoca atrevida
já me sinto Teixeirinha:
Inté Méri Teresinha
Me afronta na dividida

Mas a chinoca escorrega
Muda de assunto e me pega
no velho laço classista
só que a isca não me aguça
nem que eu lambuze a fuça
- logo eu, nato anarquista.

Pode ser que a espora pique
mas que bem claro le fique
nos meus verso a posição
eu morro mordendo o freio
mas me nego a fazer feio
na roda deste galpão

Sempre fui dado a uma rinha
e, talvez, por birra minha
sem ver tamanho de galo
mas esta, permita o plágio,
me relembra o velho adágio:
É uma dose pra cavalo

Já me engasgou tanto sapo
me esfolei como um farrapo
(se minto que o teto caia)
Prá no momento do atraco
pôr a viola no saco
e ter que fugir da raia

E eu tenho comigo o lema
contra a corrente se rema
mas não em canoa furada
me convidam pra ciranda
e logo a indiada se debanda
quando estradula a parada

Ando meio circunspecto
pr'essas guerras de intelecto
que apelidam de assembléia
um truco e retruco de feira
conversa de lavadeira
e eu já desci da boléia

Me convenci que salário
só discute o operário
consciente da condição
Não é o caso do escriba
que teima em falar de riba
mas não aguenta o tirão

Meu assunto já se espicha
e pra reforçar a rixa
fecho a trova no rebote
mesmo tratando com prenda
- e até que a dita se renda
vou usar do meu chicote

Se insisti na resposta rimando Acosta com bosta
foi só um gancho, e repito
Mas aviso que me abala,
quando me pisam o pala
lançando esterco no dito

(Acosta)

Anas Maria voltou à toda, na resposta:

Não era laço, seu moço
e nem mirei seu pescoço
era armadilha, de fato
queria pegar o rato
que diz que é anarquista
pra trair causa classista

Escorrego - ele acusa
mas o home usa e abusa
de verso pra despistar
mas o home usa e abusa
inda se põe a chorar
co'a debandada da indiada
no meio dessa parada


Por isso fica bem claro
e nem precisa ter faro
que o brilhante cantador
teve auxílio pra compor
e tem peito o nosso guapo
se comparando a um farrapo


Se o desafio le incomoda
então abandone a roda
e volte pro seu lugar
azar meu em desafiar
e perder tempo bastante
com quem já não se garante


E não acuse o prezado
meu verso de pé quebrado
não ganho queda de braço
mas briga de rima eu traço
sou muito boa de trova
bem posso le dar u'a sova


Tampouco alegue o amigo
que "com mulher eu não brigo"
o mui forte sexo frágil
já demonstrou que é bem ágil
e quem sabe até não mande
em machão lá de Rio Grande


É bem covarde o janota
e não confessa a derrota
Tá certo que é uma vergonha
com que gaúcho nem sonha
levar uma surra de rima
e de prenda, ainda por cima


Já pensa em pedir penico
mas le garanto que eu fico
mesmo que trove sozinha
tenho aqui u'a idéia minha
remando contra a corrente
é que não se vai pra frente


Assim, meu caro aprendiz
cuidado com o que diz
não lance mais desafio
com esse curto pavio
mais vale ficar calado
que ser desmoralizado


Guarde a sua petulância
e toda a sua arrogância
pra marisqueiro enganar
que audácia querer rimar
- Meu Deus, é quanta cegueira -
com gente lá da fronteira


Já pensa em pedir penico
mas le garanto que eu fico
mesmo que trove sozinha
tenho aqui u'a idéia minha
cremando contra a corrente
é que não se vai pra frente


Prá não herdar a desdita
desta tua alma aflita
vou por aqui encerrar
prometo não mais rimar
- porque já sei que não gosta
teu nome, Acosta, com bosta


E veja lá como fala
ninguém le pisou o pala
que é roupa de bom gaúcho
Prá quem foge do repuxo
todo cheio de fricote
a roupa certa é o saiote


E tenho dito. Ana Maria, 19.06.1980


A esta altura, a romaria pelo mural era diária, de todos os setores da rádio, querendo conferir no que ia dar tanto "puaço" de estrofe. E se tem, público... Lá vinha o Acosta de novo.

Se o saiote é roupa certa
já usou muito farrapo
na cintura pôs os trapo
para se manter decente
mas há quem esconda as vergonha
tapando a cara com fronha
Num saiote diferente

Sei que a prenda me perdoa
se o chicote le atordoa
mas não le bato com rosa
já que partiu pro esculacho
tem que guentar feito macho
sem se fazer de mimosa

Quem se tem por muito buena
que não fique a fazer cena
desaforando a questão
Arrenega a Arrozeira
que a indiada marisqueira
cavoca no mesmo chão?

Tem mais: na beira da praia
não houve rabo-de-saia
que me abalasse na rima
lá a china se limita
campeia outra gasguita
pra treinar suas esgrima

Se cometi o desvario
de topar o desafio
é que me agrada o repente
mas não me alegue o auxílio
porque matungo eu encilho
sem retoçar com a mente

Eu já tava preparado
pr'esse choro deslavado
porque a minha lavra é farta
e desmascaro a bosseira
que se pinta de arrozeira
mas não passa de lagarta

Já le mostro sem fastio
que o tamanho do pavio
dá o tempo da explosão
e pr'essa tua espoleta
um paviozinho sotreta
acaba co'a discussão

De verso, não de bofete,
quero que bem me interprete
pra não correr dessa briga
que agora respondo a tua
sentando de novo a pua
e esclarecendo as intriga

Um farrapo que se preza
no momento em que se enfeza
não arreda do entrevero
Eu não posso dar guarida
a uma indiada desunida
sob a pele de carneiro

Me convidam pro fandango
mas alerto que me zango
se falta par no galpão
dançar só não me dá lucro
sou índio criado xucro
e não aceito carão

E não vem com essa história
de marisqueiro, simplória
que o teu arroz embolota
vais ver que sou como o mar
por mais versos que tirar
nunca essa fonte se esgota

Ou, na linguagem campeira,
que nem égua parideira
que não cessa de dar cria
E por mais que a china plante
É de lei, não se garante,
teu arroz se acaba um dia

(Acosta)



Ana Maria, de volta:


Me entendeu mal o ofendido
do saiote referido
eu pensei mais no escocês
com toda a sua altivez
tocando gaita de fole
sem nem ligar pra quem bole

Mas se o taura quer rodeio
que se segure no arreio
se quer bochincho e planchaço
aguente-se o barbicacho
não jogo tava culeira
nem perco pra calaveira

O bichoca tem topette
imaginando que é um flete
a ele um simples trotar
já basta pra estropiar
e perder as estribeiras
no meio das polvadeiras

Então, me informa o lasqueado
sem se fazer de rogado
nem sentir constrangimento
que o que ocorre no momento
é eu trovando faceira
c'uma égua parideira

Qual cusco dentro de igreja
o qüera sem rumo andeja
xingando a torto e a direito
numa falta de respeito
o malevo até baleia
quem só assiste à peleia

Me achicanar pra haragano
É coisa fora de plano
Ai, cuña, em índio pialado
depois de testavilhado
só mesmo um tiro certeiro
pra liquidar o caborteiro

Se o arroz é embolotado
bem pior é um bolorado
co'a umidade do mar
e a peixe fresco cheirar
antes ser uma arrozeira
das terras da Cachoeira

Se planto arroz de renome
É pra le matar a fome
seu mar está poluído
e o peixe anda sumido
assim, se o arroz acabar
tem pança que vai roncar

E a minha é que não vai ser
porque vou sobreviver
quem tem terra tem comida
e até pode dar guarida
pra quem pensa que no mar
também se pode plantar

Comigo esse maturrango
vai ter que dançar um tango
se quiser escapar vivo
perdendo esse ar altivo
ele há de pedir arrego
pra salvar o pelego

Na terra do marisqueiro
diz o próprio, bem ligeiro,
a china não entra em trova
por certo le dá uma sova
sem nem ter dó da guria
o marinheiro do dia

Quanto ao pavio alegado
todo guasca tá lembrado:
se tanto ladra o cão
já diz o velho refrão
- prova meu cusco Lorde
é sinal de que não morde

A trova de hoje é mais breve
de parte de quem le deve
um desafio à altura
aqui, alguém me assegura
só em verso de jumento
tamanho é que é documento

Baseada nessa certeza
Vou concluir com presteza
- enquanto o maula se enrosca
da trova ao lado a resposta
dizendo pra quem aposta
não levar fé no Acosta

Ana Maria


O chefe do departamento de jornalismo da Guaíba, Luís Figueiredo, era tido como um carolão, e a proximidade da visita do Papa João Paulo Segundo a Porto Alegre estava "mexendo com seus nervos". De repente, ele veio pedir que a gente não colocasse no mural tanta "bosta", ou seja, palavras menos nobres. E o comentário foi passado em versos para Ana Maria e o publico;

18.06.1980

Ana:
A pedido da chefia
e só por isso, guria
a trova tá censurada
de agora em diante o mural
não pode ofender a moral
que defende a cacicada

Segundo o Figueiredo
(Dirão, quem tem cu tem medo)
o Ranzinza(*) se desgosta
por isso permite a trova
mas pede que a desova
não seja de merda ou bosta

Ranzinza(*) Armindo Antônio Ranzolin, então diretor da rádio.

O dito tá impressionado
com o roteiro marcado
prá visitinha papal
E tá pensando, o Gorducho
que a caravana de luxo
vai passar pelo Mural

Por isso, e por mais nada
vamos dar uma limpada,
no rabo dessas estrofes
quero que o desafio prossiga
E não que tão boa briga
se acabe pelos maus bofes

A pedido da chefia
e só por isso, guria
a trova tá censurada
de agora em diante o mural
não pode ofender a moral
que defende a cacicada

Diante da vaia geral
ganhamos meio mural
prá cultivá a tradição
porque o nosso comandante
do CTG num rompante
queria ser o patrão

(Acosta) 18.06.1980.


E, no dia seguinte, os versos em resposta a Ana Maria.


Sabia que era suicídio
a afronta desse oídio
- Não tinha comparação
mais parece um inventário
já vejo, tem dicionário
nessa tua inspiração

E se trai pelo verbete
quem abusa do cacoete
a própria língua se morde
já fugiu do nosso clima
parece falta de rima
chamar o cusco de Lorde

Mas, que se espera da china
que, empertigada se empina
no lombo de um Doginho
em vez de chula e de xote
dança roque e dá pinote
ruminando um chicletinho

Ora, que falsa a donzela
quer me passar pela goela
que entende de agricultura
mas antes que o arroz deite
vai invernar nos "Esteite"
pra não sujar as pintura

Sinto maior disparate
no que a china me rebate
menosprezando o oceano
Tua memória eu avivo
teu arroz tem defensivo
ficamos no mano-a-mano

Mas empate não me agrada,
e já le ganho a parada
com uma prova cabal:
Bota arroz na caçarola
mas não esquece, gabola,
de le juntar água e sal

Me dou conta que a prendinha
não sabe nem de cozinha
quanto mais do gauchesco
Le digo que ao marisqueiro
prum assado em desespero
já le basta um peixe fresco

É o que eu digo, e se prova
cavaste tua própria cova
na imitação da mulita
E se a china não se rende
Logo alguém me surpreende
desenterrando a maldita.

Teu repertório se encolhe
não me estranha que se arrolhe
reclamando da extensão
Te avisei com antecedência
já te falta consistência
fica só na xingação

Não é por nada, menina
que eu só trovo com china
com outras finalidade
minha experiência le passo
quando ela sente o puaço
se sai com barbaridade

Mas como bom litorâneo
de garantido e bom crânio
dou linha pra miragaia
o corcoveio le cansa
mas eu domo, ela se amansa
e acaba morrendo na praia

Neste truco eu tenho flor
blefe não me faz pavor
e nem sequer me atucana
com uma rima tão fraca
desperdiçou a pataca
quem botou ficha na Ana

(Penso que a china bosseira
já se assusta da carreira
e pode sumir do mapa
mas tudo isso eu previ
há muito que eu já senti
que o teu arroz tá na rapa)

Ana Maria, de volta:



O compadre aí se exprime
como se fosse um crime
lançar mão do dicionário
Não sabe, o pobre otário,
que até o Mário Quintana
faz o mesmo que a Ana.

Com o português tão rico
o crime é, já le explico
fazer o que você faz
com a cosnsciência em paz
usar só vinte palavra
nos versos de sua lavra

Já rimou china e menina
de umas trinta vez pra cima
e agora apela esse chivo
pro ralo diminutivo
com a trova em desalinho
combina inho com inho.

Me critica por meu carro
mas inveja o despilfarro
não sabe ainda o plebeu
que ter um pingo só seu
é mais que uma obrigação
pro gaúcho é tradição.

Se espremer num coletivo
acaba com o ar altivo
num tal de aperta-aperta
Mas o fato é que, na certa,
O dito tá acostumado
a se amontoar feito gado

Se esquece também, o infeliz
naquele verso que diz
que a chula a prenda não dança
de uma lição pra criança
a chula - é coisa ensinada -
só por homem é dançada

Quanto a invernar nos Esteite
é pra meu puro deleite
e também pra aprender
nada melhor que fazer
não só rima em português
mas também verso em inglês

Ele aqui já desanima
mas diz que trova com china
com outra finalidade
se ela diz barbaridade
deve ser só de cansaço
de tanto esperar o puaço

Ao reclamar da extensão
foi mais para dar vazão
ao meu instinto piedoso
senti que ao moço vaidoso
já le faltava o assunto
para poder chegar junto

E bem que tinha razão
O cabra faz gozação
Mas já diminuiu sextilha
De certo tá fraca a pilha
Prá treze deu desta feita
numa conta meio estreita

Com uma a menos por dia
vai dever trova à guria
até posso calcular
que a resposta vai faltar
o guasca está à deriva
na contagem regressiva

E pra evitar humilhação
também estendo a mão
e não me alongo demais
Guardando os versos a mais
Levo pra casa o excedente
e não magôo o vivente

Assim, prolongo a parada
que é coisa que me agrada
nas noite desta Guaíba
O verso ajuda a escriba
a passar o tempo flauteando
quem tá co'motor rateando.


Ana Maria

Os treze versos de resposta... do Acosta:


Quanto a usar o amansa
quando a memória se cansa
esse direito se dá
Me admira é que a fedelha
sai dos cuero e já se espelha
no sistema do gagá

A pobre agora me aponta
chega até a fazer conta
de verso repetitivo
de que se queixa a borralha
se a rima, quando le encalha
apela pro infinitivo

Se é tão rico o português
que seja a última vez
o que me fez outro dia
Prá ter um verso medido
Lascou, mudando o sentido
"sem não ter dó da guria"

Vai-te afundando, tatu
que arroz eu não como cru
e te cozinho sem pressa
Um dia vem com lamento
que tamanho é pra jumento
e fica pedindo meça

No outro, já se assanha
acha que a trova tá ganha
porque le puxo o cabresto
ora, ora, se decida
pois faço curta ou comprida
sem conjugar pelo texto

Teimosa como uma mula
ela me lembra que chula
é dança feita pra macho
e lá se vai a encomenda
se não se veste de prenda
misturo no mesmo tacho

Alega que carro é pingo
mas só cavalga aos domingo
se empanturra o pobre bicho
o matungo nem atina
não trota sem gasolina
e tem por rédea o esguicho

Me amontôo feito gado
e não me sinto humilhado
na falta de condução
é coisa de assalariado
não tenho dólar guardado
prá investir na inflação

Te dá conta o quanto sofres
e eu, em poucas estrofes
já te deixo atrapalhada
Sai da raia e te aboleta
teu matungo nesta reta
não vai dar nem pra largada

A exceção me persegue
e já não há quem me negue
que estou bancando o otário
primeiro, trovo com china
Agora, o que me alucina
é trovar co' dicionário

E haja verbete, potranca
neste jogo eu tenho a banca
e não temo salafrário
Até me alegra este fato
reconheço, de barato,
que é melhor adversário

E já se vê quem rateia,
no meio desta peleia
pela reação geral
cada um lê comenta:
a prenda sangra nas venta
rimando só na moral

Desventurada siriema,
é uma surra em cada tema
porque a rima me abunda
o páreo está tão folgado
que tenho meu pingo ensilhado
e só volto na segunda.

(ACOSTA)



De repente, Ana Maria enche o saco, e convida a um encerramento glorioso:



Encerro aqui meu trabalho
neste mural do (...)aralho
pois tenho melhor gincana
para a próxima semana
Afinal, nem só de trova
vive uma prenda tão nova

Quem sempre me acompanhou
Saiba que muito me honrou
nunca este meu palavrório
teve tão culto auditório
e com talento tão raro
por isso mesmo é que paro

Vou deixar livre o espaço
pra quem mais quiser dar laço
em cupincha que faz trova
está na hora da prova
O Moiano que se aplique
Co' Macedo no repique

Já cumpri minha intenção
De pôr imaginação
nesta (..)orra de mural
dia-a-dia sempre igual
com aviso sério e azedo
deste chefe Figueiredo

Me diz que arrenego a trova
e le contesto - uma ova!
Não me falta inspiração
Aguento bem o tirão
Eu posso ficar rimando
sabe lá Deus até quando

Mas, atenção: não procuro
Motivo falso - eu juro
pra sair desse estrupício
e propor um armistício
Se é coragem desafiar
É bem mais pacificar

Não quero, claro, a medalha
que a Virgem Santa me valha
do tal Pacificador
que esta premia o terror
de um certo delegado
daquele par seqüestrado

Fosse ele o desafiante
garanto que num rompante
até largava a caneta
pra ultimar o sotreta
sem ter dó nem piedade
numa guerra de verdade

Mas como o tal é o Acosta
parceiro de quem se gosta
saio tranqüila da roda
Dizendo - amigo - foi (...)oda
conseguir o meu intento
com cara do teu talento

Sei que fui bem petulante
desafiando esse cantante
de tradição comprovada
por isso, meu camarada
de fé e de juramento
aceita o meu cumprimento

Muito aprendi nessa rinha
que teve galo e galinha
em briga sem precedentes
espero que não lamentes
ter dado corda espichada
pra uma simples iniciada

Se xinguei muito "parcero"
foi mais pelo desespero
de encontrar boa rima
pois é coisa que me anima
ter merecido resposta
de um índio como o Acosta

Quem não gostou da parada
por ser muito desbocada
Eu já le dou a resposta:
Melhor dizer merda e bosta
do que fazer as (...)agadas
em áreas inadequadas

E bastam estas (...)orradas. Tenho dito. Ana Maria.

Depois deste encerramento amistoso, a resposta também amistosa.

Co'a seda toda rasgada
termino esta chanchada
bobo que nem mmacambira
me esforcei como pude
e já divido as virtude
dessa mui grossa mentira

Lincoln me vem à memória
nesta jornada de glória
que não passou de um engodo
Nunca, assim, pela frente,
tão poucos a tanta gente
enganaram o tempo todo

Tens parte nisso, matreira
atochando que Cachoeira
era torrão fronteiriço
e eu sustentando com ardor
que terra de pescador
dá trovador de caniço

E que prenda anedoteira
dizendo que é da fronteira
leva os trocados da gente
que eu saiba a legendária
- A mui legal Candelária
não se fez independente

Confesso que, na verdade,
com outras finalidade
andei trovando à deriva
Mas era num outro clima
sequer me exigiam rima
pura questão de saliva

Pretendo até ser sucinto
pr'esse público distinto
que prestigiou nossa garra
nossa tarefa foi dura
mas se cumpriu à altura
Creiam-me: foi uma farra!

Só permitam que eu deguste
até o fim o embuste
que se fez neste mural
Não quero que a moça engula
eu nem sabia que chula
não é dança bi-sexual

Daí se vê que o "gaúcho"
só suportou o repuxo
porque não teve pudor
Pois ia ficar vermelho
se se mirasse no espelho
ou se a trova fosse a cor

Pretendo até ser sucinto
pr'esse público distinto
que prestigiou nossa garra
nossa tarefa foi dura
mas se cumpriu à altura
Creiam-me: foi uma farra!

E é bom que se esclareça
Antes que a fama nos cresça
e um Bailão faça proposta
Com uma chamada brejeira:
Ana, a macanuda arrozeira,
contra o marisqueiro Acosta

Quanto a merecer resposta
é só me rimar com bosta
que o estouro está garantido
Seu talento recomenda
E se essa trova deu renda
os lucro são dividido

E reforço a sugestão
que outra trova no galpão
de agora em diante comece
Não sai Maced0 x Moiano
no mesmo horário é um cano
porque de tempo carece

Mas não por falta de estrofe
O Moiano me disse em "offe"
que à noite só tem a Ana
Se é bem macho o Norberto
Parece, tá tudo certo,
Hoje saim outra gincana

Então fica a despedida
Desta dupla agradecida
pela atenção dispensada
O Acosta les abana
E o até breve da Ana
Felicidades indiada

(Acosta, 23 de junho de 1980)